Amadora - Antes e Depois de Abril




Amadora: Anos 50 e 70

A posição que a Amadora ocupa relativamente a Lisboa, condicionou desde muito cedo todo o seu processo de desenvolvimento. Apenas a 10 km do centro, a Amadora foi crescendo e desenvolveu-se sem estruturas próprias funcionando como satélite da capital.
A estrutura urbana surgida nos primeiros anos do século XX é abalada pelas construções dos anos 30, de 3 a 4 pisos, e completamente destruída com o surto de crescimento demográfico verificado a partir dos anos 50. A partir de então a construção é por completo desordenada e a Amadora nasce de forma descaracterizada. Entre 1950 a 1970 assiste-se a uma verdadeira explosão demográfica. Só na década de 50 a população atinge uma taxa de crescimento de 150%, a mais elevada da região de Lisboa. Para esta explosão demográfica concorrem vários fatores, melhoria das infraestruturas de transporte da região de Lisboa, eletrificação da linha de caminho-de-ferro e os largos contingentes migratórios que afluem atraídos pela criação de novos postos de trabalho nas indústrias e serviços que se estabelecem na Amadora. A escassez verificada no mercado da habitação, aliada à especulação imobiliária na capital, conduzem a um crescimento desenfreado das periferias. A Amadora não foi exceção. Bairros clandestinos sem qualquer tipo de plano ou programa de construção, com grandes falhas de infraestruturação, sem equipamentos de saúde, desportivos ou culturais, constituem o "submercado" ilegal a que a população, menos favorecida economicamente, tem acesso.
No início dos anos 70, a população residente assenta sobretudo na imigração vinda de Lisboa, Alentejo, Beiras, Zona Centro do País e de Cabo Verde (então colónia portuguesa). Poucas escolas, quase inexistência de equipamentos culturais e desportivos, ausência de espaços verdes, ritmo de construção acelerado de grandes blocos de cimento, bairros clandestinos e degradados. Assim era a Amadora aquando da criação do Município em 1979, o primeiro e único a ser criado após o 25 de Abril de 1974: uma típica cidade suburbana, com carências estruturais características desta situação.
Fonte: Amadora, Córdova, Amizade, Cooperação, Amadora, Município da Amadora, 1989.


Fotografias da Amadora - Anteriores à Revolução

Alfredo Cunha

Alfredo Cunha, considerado o "fotógrafo da Revolução dos Cravos", é o autor de várias fotografias, tiradas na Cidade da Amadora, no período anterior a esta revolução (anos 70). Estas fotografias mostram os bairros clandestinos da Amadora e os "rostos de miséria" que aqui residiam.

Amadora - Revolução dos Cravos / Processo de Transição

Na Amadora, região onde vivo, a notícia, de que estava a ocorrer, em Lisboa, uma revolução, para acabar com o regime ditatorial do Estado Novo foi recebida num ambiente de grande euforia. Tal como nas restantes zonas do país, os cidadãos, residentes na Amadora, desejavam que a sua liberdade fosse respeitada e, por isso, almejavam que a revolução triunfasse para que a sua vida privada, social e política deixasse de ser controlada por mecanismos de repressão.
Tal como no resto do país, a população da Amadora vivenciou o processo de transição do Estado Novo para a democracia. Estava na rua o denominado PREC - Processo Revolucionário em Curso, expressão da autoria do Capitão de Abril Vasco Lourenço, para descrever o ambiente de agitação revolucionária que se viveu a seguir à Revolução dos Cravos. Ocupações, partidos políticos, saneamentos, reivindicações, direitos, conflitos, esquerda, direita... Tudo isto e muito mais foi vivido intensamente na sociedade portuguesa e a Cidade da Amadora não foi exceção.
Importa, ainda, referir que no dia 25 de Novembro de 1975, o General Jaime Neves liderava o Regimento de Comandos da Amadora, uma das unidades militares que pôs fim à influência da esquerda militar radical. Este movimento acabou com o Processo Revolucionário em Curso (PREC) e abriu caminho à normalização da democracia portuguesa.
A população residente na Amadora, bem como nas restantes zonas do país, com o fim do PREC, viu surgir, no ano de 1976, uma nova Constituição, que contrariamente à do ano de 1933, era democrática: restabelecia a liberdade de opinião, de expressão, de reunião e associação, garantia o direito à vida, à greve, à organização sindical, à educação, à justiça, ao trabalho, à assistência médica, à segurança social e assegurava a participação direta e ativa dos cidadãos na vida política do país. Com a Constituição de 1976 alteravam-se, na Amadora e no resto do país, as regras e mecanismos de participação cívica e de cidadania.

25 de Novembro de 1975 Regimento de Comandos da Amadora: Jaime Neves

«É na Amadora que está sedeado o regimento de Comandos, liderado pelo general Jaime Neves, que se insurgiu contra a denominada Esquerda Militar Radical que levou à conclusão do Período Revolucionário em Curso (PREC).»
                                                                                                           Carlos Silva, Vereador Social-Democrata

«Deve-se a Jaime Neves uma viragem na história. O 25 de Novembro representa um marco importante para o Portugal democrático.»
                                                                                                           Carlos Silva, Vereador Social-Democrata



«Quando subi a Calçada da Ajuda, lembro-me, eram 8 horas menos um quarto, apareceu-me do lado esquerdo um gajo chamado Galamba, a gritar: "Ó Neves! Parece que a PM quer render-se." Só lhe disse: "É muito simples, pá. Eu tenho a rede base, eu não posso suspender isto, o meu comando da Amadora tem de dar ordens."»
                                                                                                         Jaime Neves



Jaime Alberto Gonçalves das Neves nasceu no concelho de Vila Real, na freguesia de São Dinis, no mês de março, do ano de 1936. Era filho único. O seu pai era polícia e a sua mãe doméstica. Terminou o liceu em Vila Real com boas notas. Inscreveu-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, mas acabou por ingressar na Escola do Exército, em 1953. No segundo ano pediu transferência para a Academia Militar, localizada em Lisboa. Quando finalizou o seu curso, o já alferes Jaime Neves, decidiu partir, em 1957, para Moçambique. Ficou instalado em Tete com a missão de dar formação aos soldados nativos. No mês de março, do ano de 1958, partiu para a Índia.
No dia 25 de Novembro de 1975, Jaime Neves liderava o regimento de Comandos da Amadora. Tratou-se de uma das unidades que colocou um fim à influência da esquerda militar radical tendo conduzido ao fim do Processo Revolucionário em Curso (PREC). Estava, assim, aberto o caminho para a normalização da democracia em Portugal. Foi Jaime Neves que liderou o ataque dos Comandos ao Quartel da Calçada da Ajuda, em Lisboa, tendo obtido a rendição das chefias da Polícia Militar. Com o golpe do 25 de Novembro de 1975 terminou o domínio dos comunistas, da extrema-esquerda e dos adeptos do poder popular entrando-se, desta forma, na fase democrática.

Fotografias da Amadora - Transição Política

Alfredo Cunha, considerado o "fotógrafo da Revolução dos Cravos", é o autor de várias fotografias, tiradas na cidade da Amadora, no período posterior a esta revolução. Estas fotografias mostram o ambiente revolucionário que se viveu neste período da História, na cidade da Amadora, e no resto do país. 

Amadora - Depois de Abril: Anos 80

     Centro da Cidade
Todo o centro da cidade estava, nos anos 80, predominantemente vocacionado para o comércio e os serviços, mantendo-se estáveis e consolidadas a área e a função habitacionais. Nesta mesma linha se apontava o futuro do centro da cidade: habitação e setor terciário.

    Espaços públicos

Alguns novos espaços foram criados, nos anos 80, particularmente para a ação cultural e a promoção de espetáculos: Recreios da Amadora, Sala Dom João V, Anfiteatro José Afonso (no parque central), Parque 25 de Abril, na Damaia, Auditório Municipal (nos Paços do Concelho), o Parque Central e a Casa Roque Gameiro, parte do futuro Museu Municipal, juntamente com a adquirida Casa Aprígio Gomes, no centro da cidade.

   Equipamentos Desportivos/Apoios aos Clubes
Uma elevada percentagem da população da Amadora estava associada, nos anos 80, em coletividades locais ou participava sistematicamente nas atividades desportivas de cultura e de recreio promovidas pela Autarquia e/ou pelos Clubes e Associações. Os apoios do Município traduziam-se em duas vertentes:
- subsídios para a criação de espaços desportivos;
- apoios materiais, técnicos e logísticos para o desenvolvimento das suas atividades.
Por seu lado, o próprio município criou espaços e promoveu atividades desportivas sistemáticas: Corrida de São Silvestre, Torneios das Freguesias, Torneio de Várias Modalidades, Jogos Juvenis Escolares...
No capítulo dos novos espaços desportivos, sublinha-se os parques urbanos em construção, as novas piscinas, os «courts» de ténis, polidesportivos e zonas desportivas em construção junto das escolas. De salientar também a frequente colaboração da Autarquia e coletividades com as Associações e Federações Desportivas, na organização local de provas de nível regional e nacional.

   Setor Escolar
Em 1980, o setor escolar encontrava-se deficitário e perto da situação de rutura, tendo o Poder Local definido imediatamente esta área como de primeira prioridade. Concomitantemente, foram atribuídas verbas vultosas e elaborados programas de emergência designadamente para construção de escolas primárias (1.º Ciclo do Ensino Básico).
O Município iniciou processos de reclamação junto do Governo, de modo a obter os indispensáveis equipamentos para o bom funcionamento das escolas com ensino preparatório e secundário.


A evolução do setor escolar, na Amadora, nos anos 80, pode ser analisada nesta tabela:

No ano de 1989 encontravam-se em fase de concretização três escolas primárias (1.º Ciclo do Ensino Básico): Terra dos Arcos, Borel, Alfornelos. 

   Espaços Verdes e Zonas de Lazer
Os espaços verdes eram uma das maiores carências, nos anos 80, na Cidade da Amadora. Esta estava construída em função da pressão da necessidade de alojamento e não em termos de qualidade de vida e ambiente. Por isso foi papel das autarquias assumirem também este objetivo: dotar o Município de estruturas verdes e de lazer indispensáveis a uma cidade, que no ano de 1989, tinha entre 230 a 250 mil habitantes.
Em 1980, aquando da criação do novo município, havia apenas perto de 8 hectares de zona verde pública. No ano de 1989, existiam, no domínio público, mais de 200 hectares, sendo a maioria deles utilizados como zona verde e de lazer.

   Instalação de Serviços e de Novas Indústrias
Nos anos 80, várias unidades de grande comércio transferiram-se para a Amadora ou aqui se instalaram, tal como algumas unidades industriais de tecnologias de ponta. Os terrenos escolhidos e ocupados foram naturalmente os que se encontravam servidos por grandes vias de comunicação rodoviária. 

   O Progresso Desejado para a Amadora - Ano 2000
Implementação de novas estruturas verdes, implantação de serviços e novas indústrias, de equipamentos públicos e de escolas adequadas à nova face do Município. Melhor qualidade de vida, melhor ambiente e condições de vivência próprias de uma grande cidade da Europa.

Fonte: Amadora, Córdova, Amizade, Cooperação, Amadora, Município da Amadora, 1989

A Amadora Atual

Atualmente, o Município da Amadora é composto por 6 freguesias: Águas Livres, Alfragide, Encosta do Sol, Falagueira-Venda Nova, Mina de Água e Venteira.
Outrora considerada um dormitório, a Amadora passou por um processo de autonomização em relação à capital, que culminou na criação gradual de uma vida própria.
No início do século XXI, os "Bairros de Lata" foram extintos no interior da Amadora, com os programas de habitação social. As populações dos bairros clandestinos foram realojadas em bairros sociais e hoje, na Cidade da Amadora, já não existe praticamente ninguém a residir em bairros clandestinos.
Atualmente, em alguns destes antigos bairros, encontram-se espaços verdes com diversos equipamentos culturais, desportivos e serviços públicos ao dispor da população.
Os investimentos na habitação, na educação e na rede viária do Município são polos de desenvolvimento e de investimento no futuro desta jovem cidade, cujos objetivos se prendem com a melhoria do bem-estar e das condições de vida da população que escolheu esta cidade para viver e trabalhar.

Considerações Finais

Muito se desenvolveu a Amadora após a Revolução dos Cravos. A cidade tem crescido com melhor planeamento e qualidade e têm sido retificados/amenizados erros devidos ao descontrolado crescimento urbanístico. Vemos agora, nas novas construções, melhores arruamentos, passeios largos com árvores e em alguns locais pequenos espaços verdes. Na Amadora existem construções de melhor qualidade tornando tudo mais harmonioso. Como exemplo destaco a urbanização da Vila Chã.
Na minha opinião, as construções melhoraram mas falta construir visando a socialização. Gostaria que no futuro, não só na Amadora, mas como em todo o país, se deixassem de construir urbanizações, com planeamento de dormitório, que desincentivam o convívio social. Gostaria que se pensasse mais na construção de espaços verdes entre os blocos de apartamentos e que existissem amplos espaços centrais às urbanizações, livres de carros, onde os pais calmamente pudessem desfrutar dos seus filhos, com praças centrais, jardins, parques infantis e esplanadas.
Espaços destinadas ao lazer, onde se pudessem fazer pequenas compras e pequenas festas. Que fossem espaços que estimulassem o convívio social e o comércio local, evitando, as por vezes obrigatórias, deslocações de carro para poder passear ou fazer pequenas compras.
Julgo que assim as pessoas poderiam ter dentro da sua urbanização uma vida mais tranquila, com maiores e melhores laços sociais. Desta forma passariam menos tempo isoladas dentro dos seus apartamentos. Fomentava-se ainda mais o exercício físico, a mobilidade, melhorando a qualidade de vida. Julgo que assim poderíamos melhorar a vida neste locais tornando-os mais apelativos e agradáveis. Sonho com uma urbanização que nos faça sentir tão livres, e felizes tal como nos sentimos na vila dos nossos avós.
Ana Matilde 2019