25 de Abril


A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS


Em 16 de março de 1974, alguns el­ementos do Movimento das Forças Armadas (MFA), a partir do Regi­mento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha, levaram a cabo um golpe militar que, infelizmente, fracassou.
- Um novo golpe, sob a coordenação do Major Otelo Saraiva de Carvalho, foi planificado para a semana de 20 a 27 de abril daquele ano.
- De 24 para 25 de Abril de 74, as canções «E Depois do Adeus», de Paulo de Carvalho, e «Grândola, Vila Morena», de José Afonso, marcaram o início das operações militares.
- Na madrugada do dia 24 para 25 de Abril, o capitão Fernando José Salgueiro Maia proferiu as seguintes palavras: «há diversas modalidades de Estados: os estados socialistas, os es­tados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui». Os 240 homens que escutaram as palavras pro­feridas, de forma firme, por Maia, rapida­mente, formaram à sua frente: «a adesão do meu pessoal (...) foi total, ao ponto de ter de excluir gente, para ficar alguém nas instalações» (2).
- Antes de seguirem para Lisboa, Salgueiro Maia informou os seus ho­mens que só haveriam tiros sob ordens suas ou os necessários em resposta a qualquer ataque direto. Ao chegarem ao Terreiro do Paço os seus homens ocupam as posições que haviam sido acordadas e em espaço de segundos são cercados os ministérios, a divisão da PSP, aquartelada no Governo Civil, o Governo Civil, a Câ­mara Municipal, a Marconi e o Banco de Portugal. No centro da praça ficaram uma Chaimite e uma autometralhadora EBR, juntamente com um jipe, onde tinha o seu posto de comando, com três rádios para es­tabelecer contacto com o posto de coman­do da Pontinha, com a EPC e com as suas forças.
- Na cidade do Porto, os militares procederam à ocupação de todas as en­tradas da cidade, do aeroporto, da Aveni­da da Liberdade e da Praça da República, onde se encontrava o Quartel-General. As instalações do Rádio Clube Português, em Miramar, e da televisão, no Monte da Vir­gem, também foram alvo de dominação.
- Ao longo do processo revolucionário o Movimento das Forças Armadas dirigiu sucessivos apelos, através da rádio, às forças militarizadas e policiais no sentido de se manterem nos seus aquartelamen­tos e de se absterem de quaisquer pro­vocações. Foram, igualmente, advertidas de que as Forças Armadas não hesi­tariam em reprimir qualquer tentativa de resistência, embora pretendessem evitar o derramamento de sangue. No desejo de acompanhar o MFA, grande parte da população veio para as ruas apesar de os comunicados insistirem que o povo por­tuguês não deveria sair de suas casas.
- Por volta das 7 horas, no Terreiro do Paço, Salgueiro Maia cruzou-se com dois repór­teres que lhe pediram autorização para tirar fotografias e conversar com as pes­soas que se encontravam na rua. Este acedeu ao pedido: «À vontade, é também para garantir isso que nós aqui estamos» (3).
- Entretanto deu-se um dos momentos mais enervantes do dia... Uma fragata de guerra estaciona junto ao Terreiro do Paço com ordem do Governo para abrir fogo e «arrasar» o Terreiro do Paço. O posto de comando dos revoltosos, ameaça a fraga­ta com canhões colocados no Cristo-Rei: «barcos da marinha de guerra, alguns es­trangeiros, saem do Tejo. Mas uma fragata da nossa marinha começa a subir e descer o rio. O desencontro decide-se quando, do posto de comando da Pontinha, infor­mam a Marinha de que está a ser vigiada pela nossa artilharia, instalada na zona da ponte sobre o Tejo e do Cristo-Rei. A este navio deu o Governo ordem para arrasar o Terreiro do Paço. Mas mesmo Jesus Cris­to, apesar de pressionado, não assentou praça na armada nem repetiu 1755» (4).
- Um dos acontecimentos mais relevantes do dia 25 de Abril de 1974 foi a entrada de Salgueiro Maia no Quartel da GNR, sitiado no Largo do Carmo, onde se encontrava refugiado, o chefe do Gover­no, Marcelo Caetano.
- Frente a frente com Salgueiro Maia, Marcelo Caetano, apesar de demonstrar um ar cansado e transtor­nado, afirmou com uma postura altiva que apenas se renderia ao general Spínola. Justificou a sua pretensão da seguinte for­ma: "Para que o poder não caia na rua!"
- Segue-se uma descrição pormenorizada feita por Salgueiro Maia acerca do seu encontro com o Presidente do Conselho: «Quando entrei no Quartel, o ambiente que lá existia era de medo e de desejo que aquilo acabasse. As paredes pingavam água, pois os tiros tinham destruído as ca­nalizações do sótão. Falei com o coronel comandante, que não atou nem desatou (...). Entretanto, estão a terminar os quin­ze minutos e eu volto para marcar novo período. Quando regressei ao Quartel, dirigi-me ao comandante e disse-lhe que, se ele não mandava, então eu queria falar com quem mandasse. Conduziram-me à presença de Marcello Caetano; mas para isso passei por uma antecâmara, onde se encontravam Moreira Baptista e Rui Pa­trício, chorando este como uma criança, olhando o infinito o primeiro. Marcello es­tava pálido, barba por fazer, gravata des­apertada, mas digno. Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo tele­fone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua! Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua. Declarou esperar que o tratassem com a dignidade com que sempre tinha vivido e perguntou o que ia ser feito dele. Declarei que certamente se­ria tratado com dignidade, mas não sabia para onde iria, pois isso não me competia a mim decidir. Perguntou a quem competia. Declarei que a «Óscar». Perguntou quem era «Óscar». Declarei serem vários ofici­ais, incluindo alguns generais, isto para que ele não ficasse mal impressionado por a Revolução ser feita essencialmente por capitães. Perguntou-me ainda o que ia ser feito do ultramar. Declarei-lhe que a solução para a guerra seria obtida por conversações. Toda esta conversa, tida a sós, teve por fundo o barulho do povo a cantar o Hino Nacional e o Está na hora» (5).
- Entretanto Caetano os seus Ministros renderam-se ao General António de Spíno­la. Escoltados pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) deslocaram-se para a Madeira e posteriormente para o Brasil. Inúmeras pessoas com cravos na mão ou na lapela, vitoriaram o derrube do Estado Novo e a implantação do Regime Democrático.

(1) Maria Emília Diniz, Adérito Ta­vares, Arlindo M. Caldeira, História 9, Porto, Editorial O Livro, 1988, p. 237.
(2) Salgueiro Maia, Capitão de Abril. Histórias da guerra do ultramar e do 25 de Abril, Lisboa, Editorial Notícias, 1997, p. 87.
(3) Ibidem, p. 90.
(4) Ibidem, p. 91.
(5) Ibidem, pp. 96- 97.
Fonte: Revista Nos Trilhos da História -Revolução dos Cravos. Coordenada pela Professora Ana Sofia Pinto.


Imagens da Revolução: Alfredo Cunha

Alfredo Cunha tinha 20 anos quando fotografou a Revolução dos Cravos. Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, juntamente com a sua mãe, ouviu na rádio "daqui posto de comando das Forças Armadas". Decidiu, então, telefonar para o Jornal O Século, local onde trabalhava. Com câmaras Nikon F deslocou-se para o Terreiro do Paço, mesmo desconhecendo se o golpe era de esquerda ou de direita. Foi fotografando tudo o que podia. Alfredo Cunha gostava de ter tirado mais fotografias deste dia: "Devia ter fotografado mais". Dos 40 rolos que utilizou temos hoje algumas das imagens consideradas mais icónicas da Revolução de Abril. A título de exemplo, refiro o retrato de Salgueiro Maia, com o corpo meio de lado, rosto sereno e os olhos fixos na câmara. Alfredo Cunha lamenta ter utilizado apenas 40 rolos num dos dias que mais marcou a História de Portugal: "40 rolos num dos dias mais importantes da História de Portugal? É muito pouco, devia ter fotografado 120."

Vídeos RTP Ensina sobre o tema:


O primeiro telejornal da RTP no 25 de Abril


O primeiro telejornal da RTP do dia da revolução começou com a leitura de um comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). A emissão prosseguiu depois com música sendo interrompida, pontualmente, por blocos informativos.



A revolução de 25 de Abril de 1974

Na madrugada de 25 Abril de 1974, forças militares ocuparam pontos estratégicos em Lisboa e derrubaram a ditadura do Estado Novo.



A esperança cumprida

"Libertação dos presos no forte de caxias"

A revolução do 25 de abril de 1974 visava o fim do regime ditatorial, mas não podia, desde o início, esquecer os prisioneiros. Os riscos eram muitos e o perigo de morte podia estar iminente. Este final de história foi feliz, mas a ansiedade foi intensa.